Os meus miudos tiveram uma semana de férias e decidimos vir a Portugal ver os avôs e cheirar o cheiro que só se cheira em Portugal. No outro dia entrei no Pingo Doce e comprei um livro. O ‘Livro’ de José Luis Peixoto. Ontei levei-o para um dos sítios onde gosto de ler à minha vontade e ao ler uma passagem sobre ‘reguadas’ lembrei-me da régua da minha escola primária. A régua era de madeira castanha e grossa, com uns dobrados de lado e com uma figura de uma menina (naquela altura não existiam classes mistas. As meninas de um lado e os meninos do outro, mas todos com as mesmas batas brancas) com umas tranças longas e com uma cara de ‘mázinha’ gravada no topo. Senão me engano tinha também gravado, por baixo da figura da menina, a palavra ‘má’ ou uma coisa parecida. Já lá vão tantos anos e ainda me lembro bem do pavor que aquela régua castanha me transmitia. Quando a professora a tirava da gaveta da secretária era para ser usada, de certeza absoluta, só que nunca se sabia quem é que ia ser a vítima. O estranho, é que aquela régua não era usada para castigar quem se portava mal, mas sim, e aqui vem o absurdo da punição, para castigar quem não sabia fazer as tarefas da escola: ler bem, escrever bem, fazer bem os exercícios de aritmética… enfim, quem tivesse a ‘pouca sorte’ de ser mau aluno, eram reguadas a torto e a direito até que aprendesse. Eu levei algumas por não saber fazer, ou fazer mal, os problemas de aritmética. Era chamada à secretária da professora e esta pedia para estender a mão. Como criança que era, estendia a mão o mais lentamente possível e olhava para cima para a professora, que apesar de não ser muito alta, para uma criança de 7, 8 anos, parecia um gigante. Para evitar que a mão fosse desviada quando a reguada caísse, a professora pegava na ponta dos dedos esticando-a ainda mais para a régua acertar em cheio. E acertava. E na altura que batia nas mãozinhas super pequenas, os olhos fechavam. Não para não ver, mas mais como reflexo. Talvez para não sentir tanto a dor. Geralmente eram duas reguadas numa mão e outras tantas na outra, conforme os erros que se tivesse. Um dia, uma colega da classe, a Anabela, levou tantas reguadas coitadinha que ficou com as mãos todas vermelhas e inchadas. No outro dia veio para a escola com as mãos ligadas e a mãe veio falar com a professora. Mas a Anabela, coitadinha, era burrinha e para aprender a Sra Professora achava que tinha que ser à reguada. A mãe podia dizer o que quisesse mas a Sra Professora teria sempre razão. Gostava de saber em que livro é que os pedagogos daquele tempo (e estou a falar dos anos 60), se apoiavam para punir uma criança que não aprendesse, ou que, na maioria dos casos, devido à falta de atenção, errasse um problema ou desse erros num ditado!
Como os tempo mudam, e ainda bem. Hoje em dia quem tem problemas de aprendizagem, é observado psicologicamente. A inteligência é medida, apesar disto não dizer sempre tudo… e sobretudo, uma criança que erra ou tem problemas, é ajudada e apoiada, porque nem todos aprendemos da mesma forma e com a mesma facilidade. A única coisa positiva que as reguadas me deram foi motivação para estudar cada vez mais de maneira a conseguir fazer os problemas bem e consequentemente não levar mais reguadas. O paradoxo de uma coisa negativa que age de uma forma positiva. Será que se os nossos filhos fossem mais punidos seriam melhor alunos? Não acho. A aprendizagem tem de ser motivada de uma forma positiva e natural. Aprender é um dom e um direito e nunca um castigo. Que bom os meus filhos serem meninos do sec. XXI!